May 7 2014

Regina Di Ciommo

Sensibilidades e diálogos com a natureza


“Nossa situação pode ser representada pela imagem de uma arca navegando sobre o mundo, como a arca de Noé sobre as águas.”
O livro Direito Ambiental, publicado pela Editora da Embrapa, em abril, traz uma coletânea de artigos de vários especialistas.

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A socióloga Regina Célia Di Ciommo é autora de: SENSIBILIDADES E DIÁLOGOS COM A NATUREZA NO DIREITO AMBIENTAL. O trabalho discute a forma pela qual, no Direito moderno, o contrato social lançou as bases do ideal do igualitarismo, dos direitos humanos, do direito do povo à saúde, moradia e educação. Entretanto, enquanto a sociedade caminhava para a emancipação, a natureza, passiva, parecia dormir e obedecer, completamente esmagada sob a autoridade humana, sem direitos.

Atualmente, a realidade ambiental parece despertar violentamente. E o sistema natural global mostra-se frágil, enquanto a sociedade sabe construir meios técnicos de dimensões espaciais, temporais e energéticas. A sociedade contemporânea, que se pode dizer mundial, ocupa toda a Terra, como um bloco de relações intercruzadas, sem recuo ou recurso. Dessa maneira, nossa situação pode ser representada pela imagem de uma arca navegando sobre o mundo, como a arca de Noé sobre as águas, sem, no entanto, manter nenhuma reserva exterior. Estamos todos embarcados, obrigados a obedecer às leis de bordo.

O meio ambiente que era amplo e livre, com reservas que absorviam todas as perdas, deve ser agora ser protegido pelo contrato firmado com o mundo natural, dentro do domínio do Direito Ambiental, que deverá considerar o ponto de vista mundial.

O ícone pós-moderno da Terra vista do espaço permite que hoje, finalmente, possamos considerá-la inteira. Anteriormente, as pessoas só sabiam do seu chão, do seu atalho, da sua praça, ou, no máximo, o piloto conhecia a porção de oceano sobre o qual voava. Mas, popularizada a imagem do planeta Terra, fotografada pelos satélites, diante dela todos nos tornamos astronautas. Vista do alto, a Terra contém todos os nossos ancestrais, indistintamente misturados, e desaparecem as fronteiras, mais do que nunca abstratas.

Nossa mãe Terra, em agonia, precisa de nós, obriga-nos a cuidar de sua vida. Há um sentido inédito nessa nova obrigação de retribuir à natureza o nascimento que ela nos deu. Mas será possível acreditar no surgimento de sensibilidades quanto ao mundo natural à medida que escasseiam os bens da natureza?

A dúvida existe diante da maneira como a sociedade assiste ao impiedoso desmatamento à medida que sobe o valor das ações do gado nas bolsas de valores. Será que a floresta resistirá ao interesse dos seres humanos em utilizar o solo? Assistimos, constantemente, a notícias sobre o comércio de animais selvagens, maltratados no transporte e no contrabando, em nome do valor de um produto exótico, levados para longe de seus habitats, poucos resistindo às viagens, tratados como escravos do capricho humano. Animais em extinção são abatidos apenas para a obtenção de talismãs e a manipulação de fórmulas de eficácia duvidosa. A ilusão de que os oásis de mata conservada podem sustentar a vida parece dominar os cenários políticos e econômicos.

A autora se pergunta: será a sustentabilidade possível?

 

About Regina Di Ciommo

Mestrado e Doutorado em Sociologia pela UNESP – Universidade Estadual Paulista, pós-doutorado em Recursos Naturais com especialização em Ecologia Humana. Pesquisadora da Universidade Estadual da Bahia, em Ilhéus, é professora de cursos de pós-graduação. Coordenadora e membro de projetos de desenvolvimento local e sustentabilidade, no estado de São Paulo e Bahia.


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