February 27 2015

Regina Di Ciommo

As faculdades devem controlar os trotes violentos e incentivar atividades culturais e sociais dos calouros.


Trote violento acaba em lesões corporais

No inicio deste ano, um calouro do curso de Engenharia Ambiental, das Faculdades Adamantinenses Integradas (FAI), na cidade de Tupã (SP) foi vítima de um trote violento e com um ferimento nos olhos correu o risco de perder a visão.

Como em muitas outras universidades, ele foi coberto de tinta na cabeça, além de um liquido não identificado ter sido jogado em seus olhos durante o trote. No mesmo dia, uma aluna de 17 anos foi vítima de um ácido jogado em suas pernas, o que causou queimaduras. A aluna registrou boletim de ocorrência.

Mesmo com o trote proibido dentro da universidade, os alunos aplicam o trote nos calouros em pátios externos e em bares da vizinhança. O trote geralmente passa dos limites quando todos já estão alcoolizados e quando o calouro se recusa a beber, ele é forçado pelo grupo a fazer isso.

A faculdade, nesse caso, promete esclarecer o caso e responsabilizar os autores, afirmando que caso seja constatado que os responsáveis sejam alunos veteranos, o que é óbvio, tomara medidas punitivas que podem chegar até à expulsão.

O trote se transformou em um problema

O trote violento não acontece apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, as universidades registram trotes violentos, que são consideradas um problema, mas lá vêm sendo adotadas medidas punitivas do trote.

Na sociedade americana as vítimas do trote processam não só os agressores, mas as universidades, que são obrigadas a pagar multas altíssimas. Somente assim o trote vem sendo controlado. Anteriormente, em 2000, o número de estudantes americanos que morreram em decorrência do trote chegou a 19.

O professor Antonio Ribeiro de Almeida Júnior, sociólogo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiros (Esalq-USP) tem três livros publicados sobre o assunto e apurou que, no Brasil, entre 2 a 3 estudantes calouros morrem por ano em consequência dos trotes. O único caminho, demonstrado na prática são as ações movidas contra os agressores, se identificados, mas também as que obrigam a instituição a arcar com as consequências. A universidade é responsável, inclusive porque há aquelas que já tem um histórico de casos de trote violento, com alunos feridos ou que desistem de estudar por causa do trote.

Dicas para alunos e pais

O que antes era considerado um ritual divertido de passagem passou hoje em dia a ser um constrangimento violento e perigoso, chegando à lesão corporal, estupro e em alguns casos até a morte.

É difícil para os pais lidar com o problema. Neste início de 2015, muitos pais, acertadamente, acompanharam seus filhos no momento da matricula, que é quando acontece o trote. Na Faculdade de Medicina da USP, por exemplo, muitos pais participaram das atividades que este ano foram desenvolvidas, como apresentações musicais e a venda de camisetas, canetas e outras ações que substituíram o trote. Isso fez com que todos percebessem o clima de segurança que se instalou, depois que a Reitoria assumiu a iniciativa de apoiar o calouro, para evitar os escândalos que vinham ocorrendo, em virtude dos estupros de calouras que foram denunciados. Até mesmo um Manual do Calouro e o Manual da Caloura foram distribuídos.

O caso do aluno Edison Tsung Chi Hsueh, calouro de Medicina da USP, que morreu em 1999, na piscina da Universidade, foi bastante emblemático e gerou grande repercussão, com a criação de iniciativas que estimulam atividades sociais de integração para substituir o trote.

Infelizmente, no entanto, ainda há ocorrências lamentáveis que continuam acontecendo, principalmente nas Universidades do interior. Em Fernandópolis, SP, por exemplo, um estudante foi obrigado a ingerir álcool combustível, sofrendo muitas lesões.

O calouro, que chega à universidade é coagido em uma situação em que praticamente não tem escolha. Se reagir ao trote será rejeitado pelo grupo e ficará marcado pela comunidade acadêmica. Sua vontade é ser aceito, é claro. Se as alternativas ao trote fossem construtivas poderiam ajudar a integração dos calouros.

Os pais podem acompanhar os filhos ou aconselhar para que não façam aquilo com o que não concordam. As universidades precisam solicitar policiamento ostensivo para as áreas no entorno das universidades, para que pequenos grupos não consigam aplicar trotes de forma violenta e às escondidas da instituição.

No momento da matrícula, quando abordado pelos veteranos, o calouro precisa manter o espírito esportivo e, se não for humilhado ou coagido, pode encarar o trote como uma brincadeira.

Se o calouro deseja evitar todas as formas de trote pode faltar nas aulas durante os primeiros dias, evitando a participação. No entanto, se a brincadeira for saudável, o trote ajuda a fazer amizade com os veteranos. Uma das formas mais saudáveis de trote é o “solidário” em que os calouros devem levar alimentos não perecíveis para doação a instituições filantrópicas.

As festas e comemorações dentro da universidade são mais seguras, porque nesse ambiente há mais controle por parte da instituição. Antes da matrícula o aluno deve pedir informações na coordenação do curso sobre o trote que costuma ser aplicado. Entrar em contato com o Centro Acadêmico, por exemplo, pode ajudar a estar preparado e a fazer amizade com os veteranos.

Os pais podem encorajar seus filhos a participar de trotes que tenham espírito esportivo, informando a seus filhos como devem manter contato por celular e avisar a polícia caso as ações passem a ser agressivas.

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About Regina Di Ciommo

Mestrado e Doutorado em Sociologia pela UNESP – Universidade Estadual Paulista, pós-doutorado em Recursos Naturais com especialização em Ecologia Humana. Pesquisadora da Universidade Estadual da Bahia, em Ilhéus, é professora de cursos de pós-graduação. Coordenadora e membro de projetos de desenvolvimento local e sustentabilidade, no estado de São Paulo e Bahia.


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